Dez anos depois, a festa da poeira

O Santa perseguia o título desde 1947. O campeonato de 1957 foi disputado palmo a palmo e teve de ser decidido num superturno. Na final, o time da poeira se encontrava com o Sport e sua fanática torcida, em plena Ilha do Retiro. Você vai ver agora como o Saanta se tornou supercampeão e se emocionar com os momentos daquele grande clássico.
O Santa entrou no gramado da Ilha do Retiro em 16 de março de 1958 para a grande final do campeonato pernambucano de 1957, aliás, supercampeonato de 1957. O time foi para o jogo com sua formação clássica: Aníbal, Diogo e Sidney; Zequinha, Aldemar e Edinho; Lazoninho, Rudimar, Faustino, Mituca e Jorginho. Eles são a esperança dos milhares de torcedores. Encarnam o sonho de alegria e vingança dos operários, dos funcionários públicos, dos moradores dos mocambos. Sonho dessa valente poeira que fez dele o mais popular time do Recife.
O capitão Aldemar estava completando sua caminhada em direção ao centro do gramado, saldando a torcida e recebendo dela os primeiros aplausos. A força para comandar essa sensacional batalha contra o Sport, que vem de Manga, Bria e Osmar; Zé Maria, Mirim e Pinheirense; Roque, Traçaia, Liminha, Carlos Alberto e Geo. O Tricolor já era grande, mas ainda pobre. Não tinha um estádio, só um campinho de treino. O Sport ganhou o sorteio e joga em casa, para um público de 29.051 torcedores. Caso o Santa tivesse ganhado, o jogo seria nos Aflitos.
Os repórteres faziam as últimas entrevistas, os times posavam para os fotógrafos, o juiz uruguaio, Esteban Marino, tomava as providências para o início da partida. Torcedores e jogadores estavam chegando à máxima tensão, ao auge do nervosismo. Era o encerramento de um empolgante campeonato que teve três turnos e um campeão em cada. Então, em lugar da tradicional melhor-de-três, se organizou o Superturno.
A série foi aberta com o empate de 1x1, entre Sport e Náutico – que logo daria adeus ao título ao perder para o Santa por 3x1, três gols de Lazoninho. Era chegada a hora de por fim a um sofrimento que já durava uma década. A última vez que o clube das multidões havia sido campeão foi em 1947. Nos dez anos seguintes o clube chegou perto em várias oportunidades, mas sempre deixando escapar o título. Ora ante ao Náutico, que ainda conservava a tradição de não ter negros no time, ora frente ao Sport.
Os times estão formados, Esteban Marino instrui os capitães Aldemar e Mirim. Há um silêncio sepulcral – como diria o comentarista Jota Soares. Torcedores entreolham-se. Não se falam. Mas as fisionomias dizem tudo. Impaciência. Por que tantas entrevistas? Por que o Juiz não começa logo o jogo?
Um minuto antes, ainda se discutia, ainda se dizia que este seria o ano do Santa e ninguém toma. O tricolor já fez barba e cabelo, ao levantar os títulos nos aspirantes e juvenis – com um time que, por não tomar conhecimento dos adversários, era chamado de Juventude Transviada, em referência ao filme com o astro James Dean. Ainda se falava da má sorte dos outros anos. Dizia-se, enfim: só falta o bigode para a festa ser completa. E pronto: olha a bola rolando.
O Santa força, explora a estupenda forma de Lanzoninho. O Sport vem pela esquerda, com Geo, que tira proveito da lentidão de Diogo, o beque central que o técnico Alfredo Gonzáles resolveu transformar em lateral direito, por falta de melhores opções para a posição.
Ataque do Santa, falta do Sport, barreira de seis. Torcida em transe à espera do chute de Fautino, carinhosamente chamado de Marcelino Pão e Vinho – o filme é um sucesso, e Faustino, um baixinho de 18 anos, cheio de manhas e habilidades, encarna para a torcida dengosa essa picardia quase infantil. Principalmente quando se enfia, matreiro, entre os beques adversários. Mas o tiro de Faustino morre na barreira, levantando clássico ôôôooo, meia vida, meia morte, com que o povão do Santa entoa suas frustrações.
Mas já se esquece a tristeza, o Santa ataca novamente, porque de novo Faustino vai tonteando Bria, que descarrega para escanteio. É o garoto, o Marcelino da massa, quem cobra, direto na cabeça de Rudimar, que golpeia com precisão. No grito de gol, levanta a poeira, explode o estádio. A festa nasce aos 4 minutos de jogo.
E a torcida do Santa está quente. Covarde? Quem disse? O domingo está ficando diferente de tantos outros. O time morde e defende; defende e investe, a garra dos jogadores é a garra da torcida. O Sport quer reagir, a linha média do Santa não deixa. O Sport desnorteado quer recuperar o controle. Mas a cobrinha aproveita a onda, obriga o jovem manga a fazer defesas bonitas. O mito da cobra-coral se incorpora, deixa de ser mera analogia com este uniforme de três cores. Há veneno em cada lance do Santa.
Há um instante que o Sport é só torcida – mas seu grito de guerra fica suspenso, quando Mituca lança para Lanzoninho, que entra rápido na área. Ia ser gol, foi pênalti. De Osmar. Estéban Marino aponta para a marca. Traçaia e Mirim catimbam, protestando, mas são severamente advertidos pelo juiz uruguaio.
Roque pede calma, enquanto Aldemar, numa imponente elegância, caminha calmo para a área. Na torcida do Sport, silêncio. Na do Santa, festa. Mas todos se calam quando o centromédio toma a distância para a cobrança. Parece mais um ritual de tourada. Hora de matar, de ganhar frieza para desferir o golpe. Manga balança, no desespero de fechar o gol. Aldemar Passeia, corre, chuta.
Aos 18 minutos, o segundo gol. Um estrondo nunca visto. Uma torcida sofrida e pobre, essa massa do Santa economizara os foguetes no primeiro gol, guardara a preciosa munição o desafogo definitivo. As bandeira se agitam. O time está diabólico. Manga tenta consertar no grito os erros de sua defesa. Do outro lado, Aníbal tranqüilo: ninguém vem fustigar o seu gol.
Os torcedores do Sport se irritam, passam a vaiar o técnico argentino Dante Bianchi. Aos 26, a maré tricolor está de novo, ameaçando inundar a área de Manga. Zequinha, outro garoto revelação, dá uma bola com açúcar e Faustino, que passa por Bria e Osmar. Desespero de Manga. Azar do Santa. Bola na trave.
Termina o primeiro tempo. Os torcedores mergulham na cerveja. Cedo para comemorar? Que nada, este título está no papo. O Sport pode ser raçudo como for, mas este é do Santa. E parece verdade – ou parece mentira: aos 2 minutos, o terceiro da cobrinha. Falta de Bria em Zequinha, que cobra alto na cabeça de Rudimar. Manga estica-se todo, na defesa acrobática, mas termina soltando nos pés de Mituca. Não tem jeito: é bola na rede.
Delírio. O Supercampeonato está levantado. Está? É preciso ter cuidado, porque lá vem o Sport, rugindo no embalo de uma torcida que bate recorde de teimosia. Ainda há a boa trama entre Lanzoninho e Faustino – mas é a tradição de luta do Sport que revive a cada lance. São 22 minutos, e Carlos Alberto, que vinha mal na partida, faz o primeiro do Leão. Inflamam-se os rubronegros, cresce a reação. Carlos Alberto cobra o escanteio na medida para Traçaia, que perde um gol de cego. Nas gerais, suspiros de alívio. Nas sociais, olho nos relógios.
A onda passa, o povão do Santa retoma o grito de guerra – mas ele vem frio, murcho, porque o time está incrivelmente recuado. Ou foi o Sport que se desdobrou, que foi tomando o campo, alugando o espaço? E vem o segundo gol, no tiro de Zé Maria de fora da área. Olha o super indo pra cucuia: é o que se tema na geral tricolor. O leão, time e torcida, cada vez mais vibrante. Torcida covarde? Mas como gritar, se o time parou. Por sorte que, também se acalmou.
Finzinho de tempo, e para o Sport só mesmo um milagre. Mas o milagre acontece do lado do Santa. É uma bola cruzado sobre a área, é Carlos Alberto vindo ninguém sabe de onde, para o toque de calcanhar, a cruzeta. Tinha a cara de gol, tinha o ar de tristeza infinita voando para a galera do Santa. Mas teve Aníbal, milagroso pegando firme.
E assim o Santa entrou na festa no prolongamento de um susto. Tumulto nas gerais. No campo, o juiz apitando o fim do jogo. Lá fora, o Recife virando um pandemônio, o frevo emergindo das Repúblicas Independentes do Arruda, tomando o centro, espraiando-se pelos bairros distantes. De repente, a Avenida Beberibe torna-se intransitável, porque lá fica a sede do Santa e é pra lá que convergem milhares, dezenas de milhares de torcedores. Para lá correm os garotos que passaram a acompanhar o time, quase bebês, em 1947. E que jamais haviam festejado a conquista de um título.
Até o governador, Cordeiro de Faria, aproveita para fazer média e comparece à sede, misturando-se com o povão. Com o povinho. Com meia cidade que não deixa dormir meia cidade. Que faz a sua esperada festa. Festa do Campeão Sputnik, como dizia o Diário de Pernambuco, numa alusão ao satélite russo recém-lançado. Festão de um time com cara de povo. Pobre, sim. Covarde, nunca.
Texto retirado de uma edição da Revista Placar de 1979.

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